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Ebola no Congo supera 8 mil casos e 3,9 mil mortes; surto é o maior da história do país

Publicado em 28/09/2026 às 23:34 · Sara Caslow
Ebola no Congo supera 8 mil casos e 3,9 mil mortes; surto é o maior da história do país

Balanço mais recente registra 8.067 casos confirmados e 3.901 mortes; doença causada pelo vírus Bundibugyo já atingiu sete províncias e exige uma resposta de emergência em meio a conflitos e deslocamentos

Por Redação · Internacional · Saúde

8.067.

Esse é o número de casos confirmados de Ebola registrados na República Democrática do Congo no balanço mais recente disponível. Do outro lado da estatística estão 3.901 mortes.

O surto que começou em 2026 acaba de ultrapassar uma marca que muda a dimensão histórica da epidemia: ele se tornou o maior surto de Ebola já registrado na República Democrática do Congo.

Os dados, referentes a 26 de setembro de 2026, são acompanhados pelas autoridades sanitárias da RDC e por organismos internacionais de saúde, entre eles a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC).

O número que resume o tamanho da crise

Casos confirmados

8.067

Dados até 26 de setembro de 2026.

Mortes

3.901

Entre os casos confirmados registrados.

Pacientes recuperados

2.070

Segundo a atualização mais recente.

Letalidade aproximada

48%

Considerando os casos confirmados.

Mas existe um detalhe que torna esse surto ainda mais preocupante

Não se trata apenas de uma epidemia que cresceu em número de casos.

O vírus está se espalhando por diferentes áreas de um país que enfrenta conflitos, deslocamentos populacionais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde.

E existe outra particularidade: o agente responsável pelo surto é o vírus Bundibugyo, uma espécie do vírus Ebola para a qual não existe, até o momento, vacina licenciada especificamente para prevenção da doença em humanos.

É nesse ponto que os números deixam de ser apenas uma estatística.

O maior surto de Ebola da história da RDC

Surto de ebola na República Democrática do Congo - (OMS/Reprodução)
Surto de ebola na República Democrática do Congo já tem mais de 4,6 mil casos confirmados (OMS/Reprodução)

A República Democrática do Congo já enfrentou diversos surtos de Ebola. O episódio de 2018 a 2020, por exemplo, havia sido o maior registrado no país até então.

O surto atual ultrapassou aquele marco.

A OMS classificou o episódio de 2026 como o maior surto de doença causada pelo vírus Ebola já registrado na RDC. A Reuters também informou, com base nos dados do instituto de saúde pública do país, que o surto atual se tornou o maior e mais letal da história congolesa.

Em escala mundial, entretanto, há um episódio que permanece muito acima dos demais: o surto da África Ocidental entre 2014 e 2016, que atingiu principalmente Guiné, Libéria e Serra Leoa e registrou mais de 28.600 infecções e 11 mil mortes.

Uma comparação que ajuda a entender a dimensão

O surto atual já ultrapassou 8 mil casos confirmados na RDC. O grande surto da África Ocidental de 2014–2016, porém, chegou a mais de 28.600 casos em três países.

Portanto, o surto de 2026 é o maior da história da RDC, mas não o maior surto de Ebola já registrado no mundo.

O vírus não está concentrado em um único ponto

Uma das informações mais importantes para compreender o surto é sua dimensão geográfica.

No boletim da OMS baseado em dados de 23 de setembro, havia casos confirmados em 63 zonas de saúde espalhadas por sete províncias: Bas-Uélé, Haut-Uélé, Ituri, North Kivu, South Kivu, Sud-Ubangi e Tshopo.

Esse número não deve ser confundido com o balanço nacional de 26 de setembro. São referências de datas diferentes. A separação é importante porque os boletins epidemiológicos são atualizados continuamente.

Entre as novas áreas afetadas estavam Dungu, na província de Haut-Uélé, próxima ao Sudão do Sul, e Bulu, em Sud-Ubangi. A expansão para regiões próximas às fronteiras aumenta a necessidade de vigilância e coordenação entre os países.

Ituri continua no centro da epidemia — mas North Kivu chama atenção

Ituri permanece como a província mais atingida.

No levantamento da OMS de 23 de setembro, Ituri acumulava 6.032 casos confirmados desde o início do surto. North Kivu aparecia em seguida, com 1.480 casos naquele mesmo corte temporal.

O quadro, entretanto, não evolui da mesma maneira em todas as regiões.

Enquanto Ituri apresentava redução gradual da incidência em relação ao pico registrado em agosto, North Kivu havia registrado aumento significativo da transmissão, chegando ao maior nível de notificações em meados de setembro antes de apresentar queda nos dias seguintes.

É justamente essa diferença entre as regiões que torna o acompanhamento diário tão importante: uma queda nacional não significa necessariamente que todas as áreas estejam apresentando a mesma tendência.

Quase metade dos casos confirmados terminou em morte

Surto de ebola na República Democrática do Congo - (google)
Surto de ebola na República Democrática do Congo – (google)

O balanço de 26 de setembro corresponde a aproximadamente 48% de letalidade entre os casos confirmados registrados.

O número é próximo do índice de 48,1% registrado pela OMS em 23 de setembro, quando eram 7.890 casos confirmados e 3.799 mortes.

É importante entender o que esse percentual significa.

Ele não representa a probabilidade individual de uma pessoa infectada morrer. Trata-se da razão entre mortes e casos confirmados contabilizados durante o surto. O indicador pode mudar conforme novos pacientes são diagnosticados, tratados, recuperados ou têm seus casos revisados.

Por que os números podem mudar?

Dados de surtos são atualizados à medida que novos diagnósticos, mortes, recuperações e investigações epidemiológicas são incorporados. Por isso, números publicados em dias diferentes podem não coincidir exatamente. Nesta matéria, cada dado é acompanhado, sempre que necessário, pela data do respectivo boletim.

Mais de 32 mil pessoas estavam sob acompanhamento como contatos

Existe outro número que ajuda a dimensionar o trabalho necessário para interromper a transmissão.

Em 23 de setembro, a OMS registrava 32.342 contatos que precisavam de acompanhamento. Desses, 26.980 haviam sido monitorados nas 24 horas anteriores — equivalente a 83,4% dos contatos identificados naquele momento.

O rastreamento de contatos é uma das principais ferramentas utilizadas para descobrir rapidamente pessoas que podem ter sido expostas ao vírus e encaminhá-las para monitoramento, testagem ou atendimento quando necessário.

Quanto mais difícil é identificar os contatos, maior é o risco de que pessoas infectadas permaneçam fora do radar da resposta sanitária.

E é justamente aí que a crise fica mais complicada

O Ebola não está sendo combatido em um ambiente estável.

A OMS relata que conflitos, insegurança, deslocamentos populacionais e acesso limitado a serviços básicos dificultam a vigilância, a busca de casos, o rastreamento de contatos, o controle de infecções e o acesso oportuno ao tratamento.

Na prática, isso significa que controlar o vírus depende de muito mais do que identificar pessoas doentes.

É preciso localizar rapidamente novos casos, descobrir quem teve contato com eles, garantir atendimento, proteger profissionais de saúde, realizar testes, acompanhar comunidades e evitar que a transmissão avance para novas áreas.

O ponto mais delicado: não existe vacina licenciada específica para Bundibugyo

Marie Sembu, enfermeira do Ministério da Saúde local, prepara uma injeção da vacina Ervebo durante o evento de lançamento do estudo BRAVO, no Laboratório Provincial de Saúde Pública de Bunia. República Democrática do Congo, setembro de 2026. ©Kristen Poels/MSF
Marie Sembu, enfermeira do Ministério da Saúde local, prepara uma injeção da vacina Ervebo durante o evento de lançamento do estudo BRAVO, no Laboratório Provincial de Saúde Pública de Bunia. República Democrática do Congo, setembro de 2026. ©Kristen Poels/MSF

É aqui que uma diferença científica importante precisa ser entendida.

Existe vacina contra uma espécie de Ebola. A vacina Ervebo é licenciada para a doença causada pelo vírus Ebola da espécie Zaire.

O problema do surto atual é outro: ele é causado pelo Bundibugyo virus.

Segundo a OMS, não existe atualmente uma vacina licenciada especificamente para prevenção da doença causada pelo Bundibugyo. A organização avaliou a possibilidade de utilizar a Ervebo no contexto do surto, mas concluiu que as evidências disponíveis ainda não são suficientes para demonstrar sua eficácia contra essa espécie em humanos. Por isso, a OMS recomenda que seu uso contra a doença causada por Bundibugyo ocorra dentro de protocolos de pesquisa.

Isso não significa que não exista nenhuma investigação científica em andamento.

Pelo contrário: a OMS informa que um ensaio clínico para investigar tratamentos contra a doença causada pelo Bundibugyo começou a recrutar pacientes em julho de 2026.

O que acontece dentro dos centros de tratamento?

O atendimento exige protocolos rigorosos de prevenção e controle de infecções.

Profissionais que entram nas áreas de tratamento utilizam equipamentos de proteção, incluindo macacões, luvas, máscaras e proteção facial. A rotina é estruturada para reduzir o risco de exposição ao vírus durante o atendimento.

Médicos Sem Fronteiras, que atua em centros de tratamento na RDC, descreveu a intensidade da resposta e destacou que a epidemia acontece paralelamente a outras necessidades de saúde da população.

A organização também afirma que o país enfrenta uma crise humanitária prolongada, o que torna a resposta ao Ebola ainda mais complexa.

O surto pode chegar a outros países?

A possibilidade de disseminação internacional é uma das razões pelas quais a situação recebe acompanhamento fora da RDC.

A própria OMS identifica como maior preocupação regional os países que compartilham fronteiras terrestres com a República Democrática do Congo.

Mas há uma informação fundamental para não transformar a notícia em alarmismo: a avaliação atual da OMS não considera o risco global alto.

Na avaliação de risco publicada pela organização, o risco dentro da RDC foi classificado como muito alto; para os países que fazem fronteira terrestre com a RDC, como alto; e para o restante da região africana e para o mundo, como baixo.

A OMS também não recomenda, com base nas informações disponíveis, restrições de viagens ou comércio com os países afetados.

Então, o que realmente está acontecendo?

A resposta não é simplesmente “o Ebola voltou”.

A República Democrática do Congo enfrenta em 2026 o maior surto de Ebola já registrado em seu território, provocado pelo vírus Bundibugyo, com mais de 8 mil casos confirmados e quase 4 mil mortes.

Ao mesmo tempo, o vírus continua sendo monitorado em diferentes províncias, enquanto equipes tentam localizar casos, rastrear contatos e interromper novas cadeias de transmissão.

O tamanho do surto é histórico. O risco global, porém, permanece classificado como baixo pela OMS. É justamente essa diferença entre a gravidade local e o risco internacional que ajuda a entender o que os números realmente significam.

O que os próximos dias podem revelar

O principal indicador a observar não é apenas o número acumulado de casos.

As autoridades precisam saber onde estão surgindo os novos casos, quantos deles podem ser vinculados a contatos conhecidos e se novas zonas de saúde continuam entrando na lista de áreas afetadas.

Esses indicadores ajudam a mostrar se a transmissão está sendo efetivamente interrompida ou se o vírus continua encontrando novos caminhos dentro das comunidades.

A OMS informou que a média móvel de sete dias apresentou uma retomada no início de setembro, seguida de redução nos dias mais recentes. Entretanto, a tendência nacional esconde diferenças importantes entre as províncias.

É por isso que o próximo boletim pode alterar a leitura do cenário sem necessariamente significar que os números anteriores estavam errados.

Os números que você precisa guardar

8.067

Casos confirmados até 26 de setembro.

3.901

Mortes entre os casos confirmados.

2.070

Pacientes recuperados no balanço mais recente.

48%

Letalidade aproximada entre os casos confirmados.

63

Zonas de saúde afetadas no balanço de 23 de setembro.

7

Províncias que já registraram casos.

O que se sabe — e o que ainda precisa ser acompanhado

  • Confirmado: o surto já ultrapassou 8 mil casos confirmados.
  • Confirmado: 3.901 mortes foram registradas até 26 de setembro.
  • Confirmado: o agente causador é o vírus Bundibugyo.
  • Confirmado: é o maior surto de Ebola já registrado na República Democrática do Congo.
  • Confirmado: Ituri continua sendo a província mais afetada.
  • Confirmado: o vírus já foi identificado em sete províncias.
  • Importante: os números epidemiológicos podem ser revisados conforme novas informações são incorporadas.
  • Importante: a OMS classifica o risco global como baixo, apesar do risco muito alto dentro da RDC.
Atualização editorial:

Os números desta reportagem são apresentados com suas respectivas datas de referência. O balanço mais recente utilizado registra 8.067 casos confirmados e 3.901 mortes até 26 de setembro de 2026. Informações como o número de zonas de saúde afetadas e contatos em acompanhamento permanecem associadas ao boletim da OMS de 23 de setembro, evitando a mistura de diferentes cortes temporais.

Fontes e referências

As informações desta reportagem foram confrontadas com fontes oficiais e veículos de imprensa que acompanharam diretamente a evolução do surto.

Nota: dados epidemiológicos de surtos podem ser revisados pelas autoridades de saúde à medida que novas informações são incorporadas. As datas de referência de cada indicador são apresentadas ao longo da reportagem para evitar a mistura de diferentes boletins.

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