Plano do candidato do Avante reúne 18 projetos e mistura educação, empreendedorismo, inteligência artificial, telemedicina, energia limpa, terras raras, combate à fome e uma nova estrutura nacional de segurança.
Augusto Cury apresenta um plano de governo que reúne 18 projetos e leva para o centro da proposta temas como educação, empreendedorismo, inteligência artificial, saúde digital, energia renovável, minerais estratégicos e segurança pública. Entre as metas mais chamativas estão a formação de 10 milhões de novos empreendedores, a expansão do cooperativismo para 54 milhões de cooperados e uma meta de atendimento médico digital em até 30 minutos nos casos compatíveis com telemedicina.
As cifras e metas, porém, não representam resultados já alcançados. São objetivos e propostas apresentados no plano de governo do candidato. O documento também prevê mudanças institucionais, novos mecanismos de financiamento e programas nacionais que dependeriam de implementação pelo poder público, além de articulação com estados, municípios, setor privado e instituições internacionais.
Um plano com 18 projetos e uma aposta central: educação
O primeiro grande projeto é chamado de A Revolução da Educação. O plano coloca a educação básica como principal política de transformação nacional e propõe ampliar a alfabetização, o ensino técnico e profissionalizante, a integração entre universidades e setor produtivo e a valorização dos professores.
A proposta também incorpora a chamada gestão da emoção ao ambiente escolar, com programas voltados à prevenção de ansiedade, depressão, automutilação, bullying e violência escolar. Professores, gestores, estudantes e famílias seriam envolvidos em ações de formação e prevenção.
Outro eixo é a aproximação entre educação, inovação e mercado de trabalho. O documento prevê incentivos à pesquisa aplicada, ao empreendedorismo universitário, à criação de startups e ao desenvolvimento de competências relacionadas à tecnologia.
10 milhões de empreendedores: de onde viria essa transformação?
Uma das propostas mais ambiciosas aparece no projeto dedicado ao empreendedorismo e à chamada economia distribuída. O plano estabelece como objetivo formar 10 milhões de novos empreendedores e prevê uma estrutura nacional voltada à preparação de trabalhadores para uma economia marcada por inteligência artificial, automação e novas formas de trabalho.
10 mil clubes
O plano propõe até 10 mil clubes de empreendedorismo em escolas, universidades, igrejas e comunidades, com formação prática, mentoria e criação de negócios.
Banco do Empreendedor
A proposta prevê crédito de até R$ 20 mil, com juros indicados entre 5% e 6% ao ano, além de orientação e educação financeira.
O plano também prevê que parte dos lucros de empresas nas quais a União possui participação possa ser direcionada a políticas de empreendedorismo. A ideia apresentada é utilizar esses recursos para ampliar o acesso ao crédito e à formação.
Para beneficiários do Bolsa Família, o documento propõe que a formalização de emprego ou a abertura de uma microempresa, durante determinado período, não resulte automaticamente na perda do benefício.
R$ 30 bilhões a R$ 50 bilhões: o Fundo Nacional do Empreendedor
Em outro projeto, voltado às comunidades urbanas, aparece uma proposta de Fundo Nacional do Empreendedor que poderia começar na ordem de R$ 30 bilhões a R$ 50 bilhões.
O próprio plano ressalta que esse valor não seria necessariamente gasto de uma só vez. A proposta prevê que grande parte funcione como capital rotativo: o dinheiro financiaria empreendedores, retornaria após o pagamento e poderia ser utilizado novamente.
O modelo de crédito apresentado também é progressivo. O empreendedor poderia começar com até R$ 2 mil, avançar para R$ 5 mil, depois R$ 10 mil e chegar a R$ 20 mil conforme demonstrasse utilização produtiva dos recursos e histórico de pagamento.
5 milhões de moradias: a proposta para as comunidades urbanas
O projeto Comunidades Empreendedoras do Brasil combina regularização fundiária, formação empresarial, crédito e urbanização.
Uma das metas apresentadas é regularizar até 5 milhões de moradias em dez anos. O plano estima que isso representaria aproximadamente 500 mil famílias por ano.
A proposta também prevê uma infraestrutura chamada de Comunidade 4.0, envolvendo saneamento, água, drenagem, pavimentação, iluminação, contenção de encostas, prevenção de enchentes, conectividade, melhoria habitacional e mobilidade.
54 milhões de cooperados: a segunda grande meta econômica
O projeto BCOO — Brasil Cooperativismo propõe ampliar o cooperativismo brasileiro e estabelece, para os próximos dez anos, a meta de chegar a 54 milhões de cooperados e mais de 10 mil cooperativas.
A proposta pretende levar o modelo para setores além do agronegócio e do crédito. O documento menciona cooperativas de agroindústria, bioenergia, proteína animal, indústria, tecnologia, inteligência artificial, robótica, drones, softwares, automação e plataformas digitais.
A lógica apresentada pelo plano é que a cooperação poderia distribuir oportunidades econômicas em um cenário de avanço da automação e da inteligência artificial.
Agroindústria: 10 mil empresas e 100 usinas de etanol de milho
O projeto Agroindústria Brasil propõe estimular a implantação e expansão de 10 mil agroindústrias de diferentes portes, incluindo cooperativas, agroindústrias familiares, frigoríficos, fábricas de ração e unidades de processamento de milho, soja, frutas, café e outros produtos.
Outra meta é estimular 100 grandes usinas de etanol de milho, que, quando plenamente implantadas, poderiam processar mais de 100 milhões de toneladas de milho por ano, segundo o documento.
O projeto pretende integrar etanol, energia, DDGS, produção de proteína animal e processamento de alimentos, aumentando o valor agregado da produção agropecuária dentro do país.
Cinco zonas francas para transformar o Brasil em potência exportadora
No projeto Brasil Exportador, Augusto Cury propõe a criação de cinco grandes Zonas Francas de Exportação.
- Fortaleza: energia renovável, hidrogênio verde, tecnologia, inteligência artificial, drones e logística.
- Bahia: petroquímica, indústria pesada e equipamentos industriais.
- Rio de Janeiro: petróleo e gás, indústria naval, metalurgia e robótica.
- São Paulo: indústria 4.0, inteligência artificial, semicondutores, robótica e softwares.
- Rio Grande do Sul: agroindústria, máquinas agrícolas inteligentes, robótica e integração com o Mercosul.
O objetivo declarado é aumentar as exportações de produtos industrializados e de maior valor agregado, reduzindo a dependência de matérias-primas.
Uma proposta internacional para combater a fome
O plano também apresenta uma proposta que ultrapassa as fronteiras brasileiras: um Fundo Internacional de Erradicação da Fome.
A ideia seria destinar 0,5% do comércio global e 2% da indústria mundial de armamentos para o fundo. O documento estima que isso poderia mobilizar entre US$ 177 bilhões e US$ 342 bilhões por ano.
Pela divisão apresentada, 80% dos recursos seriam destinados ao combate imediato à fome, 10% à agricultura sustentável e 10% a um Banco Mundial do Empreendedor voltado a microcrédito e capacitação.
Trata-se de uma proposta que dependeria de acordos e participação de outros países e organismos internacionais. Portanto, sua execução não estaria sob controle exclusivo do governo brasileiro.
Consultas em 30 minutos: como funcionaria a telemedicina?
O projeto Tele Saúde Brasil é uma das propostas mais específicas do documento. O objetivo declarado é transformar o Brasil na maior plataforma pública de medicina digital do mundo.
A proposta prevê uma plataforma nacional integrada, conectando profissionais de diferentes regiões do país. O atendimento digital seria utilizado principalmente nos casos que pudessem ser resolvidos remotamente, enquanto situações que exigissem avaliação presencial seriam encaminhadas para atendimento físico.
O plano também prevê o uso de inteligência artificial para realizar uma triagem clínica inicial, identificar fatores de risco, classificar prioridades e organizar informações antes da consulta. A proposta afirma que a tecnologia não substituiria o médico, mas funcionaria como ferramenta de apoio.
Entre os grupos que receberiam prioridade estão crianças em situação de vulnerabilidade, idosos com dificuldade de locomoção, pessoas de baixa renda, gestantes, pessoas com deficiência e moradores de regiões remotas.
Câncer: prevenção e diagnóstico precoce
O projeto Sociedade Está Abraçando (SEA) concentra-se na prevenção e detecção precoce do câncer. A proposta combina educação, mobilização social, tecnologia e rastreamento.
O plano utiliza como referência experiências do Hospital de Amor e propõe ampliar estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e educação em saúde. A intenção é criar uma estrutura permanente de conscientização e prevenção.
90% de energia limpa até 2040
No projeto PENER-BR — Energias Renováveis do Brasil, a proposta é ampliar fortemente a geração de energia renovável e transformar o país em um polo internacional de energia limpa.
O documento prevê o uso de inteligência artificial para mapear o potencial de energia solar, eólica, marítima, biomassa e hidrogênio verde.
Hidrogênio verde
Meta apresentada: colocar o Brasil entre os três maiores exportadores mundiais até 2035.
Matriz energética
Meta apresentada: alcançar 90% de energia limpa até 2040.
Terras raras: transformar minério em tecnologia
O projeto PETRA BR trata das terras raras e de outros minerais considerados estratégicos para a economia tecnológica.
O plano propõe um Atlas Brasileiro de Minerais Críticos, pesquisa geológica, integração entre governo, universidades e empresas e desenvolvimento de polos industriais ligados ao processamento desses recursos.
A ideia central é reduzir a dependência da exportação de minerais sem processamento e aumentar a participação brasileira nas etapas de separação, refino, transformação industrial e produção de bens de maior valor agregado.
O documento também propõe que acordos internacionais nessa área busquem transferência de tecnologia, formação de pesquisadores e instalação de centros de pesquisa e desenvolvimento no Brasil.
Floresta Viva: satélites, IA e drones contra incêndios
O projeto Floresta Viva-BR aposta em tecnologia para monitoramento ambiental e combate a incêndios.
A proposta prevê satélites e inteligência artificial para identificar focos de calor em estágio inicial, modelos preditivos baseados em clima, vento, umidade e histórico de ocorrências e uma sala de comando integrada entre União e estados.
Também estão previstos drones de resposta rápida, sensores conectados, integração com brigadas e aeronaves e uso de inteligência artificial para organizar recursos de combate.
FATO: uma nova estrutura de segurança pública
O projeto FATO — Força Alerta Total propõe uma integração permanente entre Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Civil e uma nova estrutura municipal chamada FOCO — Força de Combate Municipal.
Segundo o plano, cada município poderia criar sua FOCO, com composição correspondente a aproximadamente 5% da força de trabalho do serviço público municipal, respeitando a legislação e a realidade local.
A estrutura teria funções de prevenção da violência, proteção do patrimônio público, monitoramento urbano, apoio às polícias, proteção escolar, defesa civil, grandes eventos e resposta a crises.
O projeto também prevê um centro integrado de inteligência reunindo informações sobre mandados de prisão, veículos roubados, armas ilegais, organizações criminosas, pessoas desaparecidas, fronteiras e inteligência financeira.
Entre as tecnologias citadas estão inteligência artificial, reconhecimento facial conforme a legislação, leitura automática de placas, drones, câmeras inteligentes, sensores urbanos e análise preditiva da criminalidade.
O que une todas essas propostas?
Apesar de tratarem de áreas muito diferentes, os 18 projetos apresentam alguns elementos recorrentes. Um deles é a tentativa de utilizar inteligência artificial e tecnologia como instrumentos de política pública.
A inteligência artificial aparece na educação, na saúde, na segurança, na proteção ambiental, na administração pública, na energia e na identificação de oportunidades econômicas.
Outro elemento recorrente é o empreendedorismo. Ele aparece associado à educação, ao crédito, às comunidades urbanas, ao cooperativismo, ao agronegócio, às exportações e até à política externa.
O terceiro eixo é a ideia de transformar recursos naturais em cadeias produtivas de maior valor agregado. É nesse contexto que aparecem agroindústrias, etanol de milho, hidrogênio verde, terras raras, minerais estratégicos e tecnologia.
A grande pergunta é: quanto custaria colocar tudo isso em prática?
O plano apresenta metas, estruturas e mecanismos de financiamento, mas a execução de várias propostas dependeria de orçamento público, legislação, regulamentação, articulação com estados e municípios, participação privada ou acordos internacionais.
É justamente nessa diferença entre proposta, meta e execução que está uma das principais questões para analisar o programa de Augusto Cury.
Propostas não são resultados já alcançados
Os números mais chamativos desta reportagem devem ser lidos como metas ou projeções apresentadas pelo plano de governo. Os 10 milhões de empreendedores, os 54 milhões de cooperados, os 5 milhões de moradias regularizadas, o atendimento médico digital em 30 minutos e as metas de energia para 2035 e 2040 são propostas para o futuro, e não resultados já obtidos.
Da mesma forma, a criação de uma FOCO municipal, das cinco zonas francas de exportação, do Fundo Nacional do Empreendedor e da plataforma nacional de telemedicina exigiria etapas de implementação e, em alguns casos, mudanças legais ou institucionais.
O plano, portanto, apresenta uma visão ampla de governo que combina políticas sociais, desenvolvimento econômico, tecnologia, saúde, segurança, energia e meio ambiente. A dimensão prática de cada proposta dependeria de recursos, legislação, capacidade administrativa e articulação política.
Em resumo: o que Augusto Cury propõe?
- Educação: prioridade para educação básica, ensino técnico, professores e gestão da emoção.
- Empreendedorismo: meta de 10 milhões de novos empreendedores e criação de estruturas nacionais de apoio.
- Crédito: Banco do Empreendedor e fundo estimado entre R$ 30 bilhões e R$ 50 bilhões.
- Comunidades: regularização de até 5 milhões de moradias em dez anos e urbanização 4.0.
- Cooperativismo: meta de 54 milhões de cooperados em dez anos.
- Agroindústria: 10 mil agroindústrias e 100 usinas de etanol de milho.
- Exportações: criação proposta de cinco Zonas Francas de Exportação.
- Fome: criação de um fundo internacional financiado por parcelas do comércio global e da indústria de armamentos.
- Saúde: expansão da telemedicina e meta de atendimento digital em até 30 minutos em casos compatíveis.
- Energia: meta de 90% de matriz energética limpa até 2040 e presença entre os três maiores exportadores de hidrogênio até 2035.
- Minerais estratégicos: processamento e industrialização de terras raras e outros minerais críticos.
- Meio ambiente: satélites, inteligência artificial, drones e sensores para prevenção e combate a incêndios.
- Segurança: integração entre forças policiais, criação proposta da FOCO e uso de tecnologias de monitoramento e inteligência.
Proposta de governo do Avante para as Eleições 2026, apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral; Tribunal Superior Eleitoral — planos de governo dos candidatos à Presidência da República.
